O celeiro abandonado
- Escrito por Guilherme Simões
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Por Guilherme Simões
Deixando de lado o descaso histórico, o estado de violência assustador, e as baixíssimas médias na última avaliação do IDEB (Índice de Desenvolvimento de Educação Básica), a Baixada Fluminense segue detentora da frase que muitos profissionais do esporte gostam de exaltar: ‘A Baixada é um celeiro de craques!’
Desde garoto escuto essa frase com um ar esperançoso e por muito tempo acreditei que brevemente chegaria para o Basquete da Baixada Fluminense a realidade dos clubes do Rio. Ledo engano. Minha ingênua juventude, maquiou os fatos e não me permitiu enxergar o desenrolar histórico-cultural da região onde cresci e moro.
Nossos clubes que por alguns anos formaram atletas a nível Nacional e Internacional, em meados dos anos 80 e 90, foram destruídos pelas administrações que permitiram que os departamentos sociais e esportivos fossem mantidos pelos bailes funk. Logo, os históricos ginásios foram depredados, e a violência dessa cultura foi apenas um dos fatores que afastou os sócios daquele espaço que outrora manteve a certeza de diversão e lazer para as famílias da região. Para os administradores, era muito mais fácil manter o departamento financeiro com o dinheiro dos bailes, comparado a inadimplência dos sócios.
São inúmeros, os casos como esses entre os principais clubes da Baixada Fluminense. Mas é claro que esse não é o único motivo para o falimento dessas instituições. Má administração e a inserção de uma cultura individualizada, que promoveu o assassinato da sociabilidade daqueles que frequentavam e mantinham os clubes, fomentou a existência dos clubes, apenas como prédios recheados de dívidas e a espera do embargue da justiça.
A formação dos atletas nos esportes como Basquete, Voleibol, Futsal e Handebol, por parte dessas instituições, parou. Por alguns anos, alguns bravos seguiram preenchendo uma lacuna cronológica, audaciosamente promovendo projetos de formação de atletas de Basquetebol em escolas e ruínas de clubes. Ação altruísta, porém, longe do ideal.
Os anos se passaram e nossos craques do celeiro seguiram sem serem nutridos com os caminhos ideais para uma boa vida direcionada ao basquete. O meu futuro chegou, e o sonho de criança de termos clubes como Tijuca TC, Club Municipal ou Clube Comary se esvaiu. O presente dos ‘craques’ está aí e eles seguem sem uma abordagem de basquete qualificada. Poucos são aqueles que desfrutam do prazer de conhecer o basquete ‘federado’ logo cedo e conseguem trilhar uma história, ainda que termine no sub19 ou em equipes sem muita expressão no interior do país ou mundo afora.
Muitos são aqueles que vejo nas ruas, desfilando força e habilidade nas vielas esburacadas e lamacentas, fazendo gol em balizas de chinelo. Canso de ver moleque longilíneo, com noção de espaço e tempo bem aprimoradas, correndo atrás de pipa na rua, desviando de carro, subindo em muro e árvore. E as meninas? As negras mais fortes do Brasil estão aqui! Pena que desconhecem o basquete e preferem desenvolver seus quadris, quando poderiam fazer um belo trabalho de pernas próximo a cesta.
O celeiro segue sem os devidos cuidados, os craques crescem, são formados pela vida ou se desvirtuam (na maioria das vezes). A região segue atacada pela crueldade do abandono e o basquete (e o esporte como um todo) que poderia ser uma das principais ferramentas na formação, segue esquecido como quase todas as necessidades básicas da região.
E os ‘craques’, seguem se formando na rua.