31 de outubro de 2020

Juliana Ribeiro e Carolina França falam sobre suas conquistas e dificuldades no basquetebol feminino

Juliana e Carolina são atletas de basquetebol que possuem conquistas a nível estadual e nacional no esporte. Com seus 25 e 26 anos, respectivamente, as atletas conquistaram a oportunidade de atuar profissionalmente na equipe Sodiê Doces/LSB RJ, criada pela Liga Super Basketball (LSB) em 2019. Hoje vamos contar um pouco mais sobre o início no esporte, a trajetória em quadra dessas atleta e as dificuldades de ambas para se manterem no meio do basquete.

Juliana Ribeiro iniciou sua história nas quadras com 12 anos jogando no time pré-mirim do Tijuca Tênis Clube. O esporte proporcionou à atleta uma bolsa de estudos de 100% em um colégio particular, onde teve oportunidade de atuar em diversas competições. A atleta também integrou diversos clubes como o Clube Municipal, onde jogou o Campeonato Sul-Americano de Basquetebol Feminino, e também na Mangueira, onde pôde dividir quadra com grandes talentos do esporte. Na sua trajetória completa já jogou campeonatos estaduais, foi convocada para seleção carioca, e também para seleção brasileira, onde chegou a jogar até em Madrid (Espanha) em 2013. Atualmente, é ala-pivô da equipe profissional de basquetebol feminino Sodiê Doces/LSB RJ.

Juliana vestindo a camisa 12 da equipe profissional Sodiê Doces/LSB RJ

Companheira de quadra de Juliana, a atleta Carolina França também tem uma lista longa de conquistas no esporte. Descoberta com 13 anos por um técnico de basquete de um colégio particular, a jogadora conquistou bolsas integrais devido ao seu basquetebol em todos os colégios e faculdades que passou. Se federou em 2010 pelo Clube da Mangueira, onde participou do Campeonato Estadual no mesmo ano. Em sua trajetória conquistou o primeiro lugar do Campeonato Brasileiro Universitário 2019, representando a primeira conquista do Rio de Janeiro no campeonato após 13 anos. Ficou em segundo lugar com seu time no Campeonato Brasileiro Estudantil ocorrido em Curitiba e, nos campeonatos da LSB, conquistou o prêmio individual de Melhor Ala do Campeonato Estadual Amador 2012. No ano passado, a atleta começou a atuar profissionalmente juntamente com Juliana Ribeiro.

A atleta Carolina França vestindo a camisa 6 da Sodiê Doces/LSB RJ.

A equipe profissional adulta na qual as atletas atuam no momento (Sodiê Doces/LSB RJ) visa recuperar o basquetebol feminino no Rio de Janeiro, dar oportunidade e espaço para mulheres no esporte e abrir caminho para que as futuras gerações  também possam realizar seus sonhos em quadra. Sobre isso, as atletas contam ser uma responsabilidade enorme e também um grande sonho.

“A sensação de estar na Sodiê Doces/LSB RJ é literalmente sonho, parece que a ficha ainda não caiu de estar em um time profissional e adulto. É uma grande conquista nossa, porque fizemos por merecer e o intuito do projeto torna tudo um sonho em dobro, não é só uma realização pessoal, mas também uma forma de abrir caminho para uma menina realizar o seu sonho no futuro.”, contou Carolina França.

Sobre a responsabilidade, Juliana contou que foi um ano de muito aprendizado e adaptação.

“No ano passado eu aprendi muito sendo uma atleta profissional, foi uma grande adaptação. Tivemos ajuda dos nossos diretores, psicólogos e profissionais da mídia para saber como se portar em uma entrevista, etc. Foi uma oportunidade e responsabilidade enorme poder jogar com pessoas que você vê na televisão, saber que você pode chegar no nível daquelas atletas. Além disso, a equipe de cientistas de dados me proporcionou um aprendizado que eu não tive em 10 anos de basquetebol como lances que aumentam as possibilidades de cesta ou como quando arremessar ou não. Esse ano na equipe me proporcionou coisas inimagináveis, é muito bom ser atleta do time.”, relatou Juliana Ribeiro

Mesmo com tanto talento e as grandes conquistas dessas mulheres, o basquetebol feminino ainda não é reconhecido ou valorizado no país. O investimento, os patrocínios e recursos são muito poucos e insuficientes e, por isso, o basquetebol profissional feminino não pode ser a única fonte de renda dessas atletas. Muitas precisam se dividir entre trabalhar, estudar e jogar. Ser mulher nas quadras ainda é uma luta difícil e diária e, para Juliana Ribeiro, o que mais pesa é a falta de reconhecimento.

“Sobre jogar e trabalhar, me acho uma mulher guerreira e me sinto orgulhosa de ter no meu time outras mulheres como eu. Eu acredito que se eu pudesse me dedicar 80% para o basquete eu seria outra jogadora, mas também acredito que todos os sacrifícios serão reconhecidos uma hora! Minha vida sempre foi assim, sou negra, moro em comunidade, tenho 26 anos, já sou formada e jogo basquete profissionalmente. Sigo minha vida com muito orgulho do que sou e do que me tornei para minha família. Só queria mesmo reconhecimento e voz para o basquete feminino.”, contou a ala/pivô Juliana.

Para Carolina França o problema se resume em duas palavras: investimento e credibilidade.

“As maiores dificuldades eu posso resumir em investimento e credibilidade, porque quem têm poder para fazer o basquete feminino crescer não se importa, não confia e não investe. Não dá para viver de esporte no país, não por culpa do clube, mas pela falta de investimento dos patrocinadores. É muito suado para eles conseguirem o pouco que já temos e o feminino não tem nem 1/3 da estrutura e investimento que o masculino tem. Eu acho que o Brasil é uma fábrica de talentos em diversos esportes, mas falta muito investimento. Mulheres que se destacam precisam fazer mais que o triplo do que um jogador homem faz e o retorno é sempre desproporcional.”, desabafou Carolina.

Neste ano a equipe jogaria a Liga de Basquete Feminino (LBF) representando o Rio de Janeiro, entretanto, com a pandemia do Novo Coronavírus, o campeonato de 2020 foi oficialmente cancelado nesta semana. Mesmo com o desânimo pela falta de perspectivas para o futuro, desistir não é uma opção para nenhuma das duas jogadoras. Sobre isso, Carolina França mandou um recado para todas as outras atletas.

“Não desanimem, tenham fé. É uma fase, um momento atípico que estamos vivendo. O sonho não acabou, ele só foi prorrogado”, falou a atleta.